quinta-feira, 20 de setembro de 2012

“República do Guardanapo”

Tem sido muito difícil debater a política de Segurança Pública em nosso Estado, porque o Governo com o apoio, naturalmente, da mídia é praticamente imbatível.
O grande trunfo nas mãos do Governo que serve de biombo para toda a propaganda são as Unidades de Polícia Pacificadora. Digo que o Governo com a propaganda é imbatível, porque ele consegue justificar todas as consequências negativas, tudo aquilo que acontece de pior para a população, quando envolve a Segurança Pública e até o Governador Sérgio Cabral diretamente. O Governo fala que é resultado do êxito das UPP.
Vou citar alguns exemplos: houve a chacina, em Mesquita, num trecho do Gericinó. O Governador vai para a televisão, para os demais meios de comunicação e diz que tudo decorre da fuga dos marginais traficantes que ocupavam o território das chamadas áreas pacificadas.
O policial militar é assassinado dentro da Rocinha, vai o Governador e diz que vingança prévia em função da decisão do Governo de instalar na comunidade uma Unidade de Polícia Pacificadora.
O cadete da Polícia Militar é assassinado, e o Governador também reitera: se é vingança, ela resulta de uma retaliação da marginalidade em função das Unidades de Polícia Pacificadora.
Enfim, a médica, do Hospital Getúlio Vargas, foi assassinada numa manhã depois que deixava o seu plantão de 24 horas. Os funcionários desse Hospital registraram as dificuldades que enfrentam no relacionamento com aqueles que vão lá buscar atendimento médico de emergência porque, em não tendo condições de trabalho, os doentes se revoltam e veem nos profissionais de saúde a representação do Governo. Os atritos surgem e as ameaças também.
O Governador Sérgio Cabral diz que talvez, a comunidade do Complexo do Alemão já livre, segundo ele, Governador, da presença do tráfico de entorpecentes, a médica foi alcançada e morta como se fosse uma espécie de vingança. Então, sobre qualquer fato negativo que aconteça em relação à segurança pública, o Governo diz que as UPPs é que estão incomodando tanto a marginalidade que vem esse tipo de inconsequência. Eu não sei, é um desafio: como proclamar o êxito de algo que resulta em tantos episódios negativos?
Hoje, com todo o estardalhaço, pelo menos nos jornais televisivos da manhã, todos divulgaram que finalmente vão instalar na Rocinha a Unidade de Polícia Pacificadora. Divulgam o seguinte: primeiro, o efetivo, de 700 homens, depois, o aparato tecnológico. Todas as vielas, todos os becos, todas as esquinas estarão com câmeras de televisão; viaturas, automóveis e motocicletas estarão em todos os pontos.
Fiquei a imaginar: 700 homens é um efetivo maior do que o efetivo de praticamente a totalidade das unidades da Polícia Militar. Talvez não exista hoje um batalhão que disponha de 700 homens prontos para o serviço, mas para a Rocinha vão 700 homens.
Fiquei olhando,a imagem na televisão da favela da Rocinha. Aliás, na favela da Rocinha eles fizeram uma espécie de muralha: os prédios que dão para a via Lagoa-Barra estão coloridos, aparentemente bonitos, encobrindo o horror habitacional ali constatado. A televisão, quando fala que ali há aproximadamente 70 mil habitantes e projeta as habitações, é de lamentar, porque as condições não são nem subumanas, são desumanas.
Imaginei, então, que o Governador do Estado, sabedor de que na Rocinha há, talvez, a maior incidência de tuberculose do País, mesmo estando próxima ao mar, já que nas vielas e becos o ar não circula, em vez de câmeras de televisão, deveria ali colocar ventiladores. Mas não, ali vemos a verdadeira consagração do apartheid social. Está o Governo demonstrando como o nosso modelo exclui e como o Estado controla, como se bichos fossem. Ali está o retrato da exclusão.
Eu, ontem, acompanhando A Hora do Brasil, feliz porque o programa foi mantido das 19 às 20 horas, ouvi o Ministro de Assuntos Estratégicos, o ex-Governador Moreira Franco, ter a coragem de, em viva voz, dizer que mais de 50% da população brasileira integra a classe média. Mais de 50%! Eu levei um susto, porque os últimos dados do IBGE, há pouco tempo divulgados, dizem que temos quase 70% da população economicamente ativa com renda de 0 a 2 salários-mínimos, na seguinte ordem: de 0 a 1 salário-mínimo, 32%; de 1 a 2 salários-mínimos, outros 32%; e mais uns 7% - porque não são 32% exatos -, de 1 a 1,5. É duro verificar que, para proclamar o êxito do atual modelo – a inclusão –, um Ministro de Estado se contrapõe aos dados divulgados pelo IBGE.
Não sei até quando eles pensam que vão continuar mentindo. Não sei até que ponto eles vão tentar enfiar goela abaixo da população que a insegurança pública será resolvida com a ocupação militar das comunidades excluídas. Não sei. O que eu sei é que a população da Rocinha, agora, vai se sentir completamente controlada e vigiada – aparentemente muito mais segura. Mas nada vai apagar a imagem da miséria; nada vai suprimir a denúncia, com a existência da Rocinha, de que o Brasil de hoje, 5ª economia do mundo, ainda não conseguiu realizar uma habitação digna para cada um dos brasileiros ou estrangeiros que aqui residem.
Que o Governador Sérgio Cabral, do alto da “República do Guardanapo”, saiba que a mentira tem pernas curtas e, com total certeza, brevemente a CPI do Carlinhos Cachoeira, que já incorpora a Delta, vai alcançar também a “República do Guardanapo” pelas mentiras que prega.
Violência maior do que qualquer tipo de violência que possa advir da Rocinha, por desvios de conduta de quaisquer de seus jovens, é a própria existência da comunidade.

DISCURSO DIA 20/09/2012

Um comentário:

  1. Depois de três décadas sendo controlado pelo tráfico nas favelas, finalmente o Rio de Janeiro tem um governo que teve uma iniciativa pra acabar com essa bagunça. Eu não consigo entender como algumas pessoas podem dizer que as UPP's são apenas ferramentas de propaganda.

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