terça-feira, 15 de março de 2011

A Visita do Presidente Barack Obama

Discurso 15/03
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, estou acompanhando com muita atenção e dedicação as matérias que vão sendo divulgadas pelos meios de comunicação relativas à visita que fará ao Brasil, nos próximos dias, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. E, quero manifestar a minha preocupação, porque ao longo dos últimos anos, a política externa brasileira tem contrariado, e em muito, as pretensões hegemônicas do imperialismo americano; pretensões hegemônicas que não se recusam sequer à utilização do seu aparato bélico para a imposição de seus interesses.

Podemos citar, primeiro, o assalto à mão armada que foi perpetrado contra um país inteiro e seu povo, levando à morte por assassinato seu Presidente da República, Saddam Hussein. Disse à época o Presidente dos Estados Unidos, George Bush, que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa. Naquela época, ficou comprovado que tal afirmação não correspondia à verdade, mesmo assim, contrariando a decisão da Organização das Nações Unidas, os Estados Unidos perpetraram grandes atrocidades, levando à morte milhares e milhares de iraquianos, além de dezenas e dezenas, ou centenas e centenas de soldados americanos.

Numa visão honesta, o Presidente dos Estados Unidos de então, deveria hoje estar sendo submetido ao Tribunal Internacional Penal pela prática de crime contra a humanidade. Mas, não está sendo e certamente não o será.

O Brasil tem estado, ao lado dos países da América Latina, especialmente os países da América do Sul, que se insurgiram e continuam se insurgindo, contra o império americano. Podemos citar a Bolívia, de Evo Morales, que encampou, nacionalizou várias companhias que administravam o gás boliviano.

Rafael Correa, do Equador, que não assinou a renovação do contrato de manutenção de uma base americana em território equatoriano. A Presidente da Argentina, que sucedeu o marido, Cristina Kirchner, que tem, a duras penas, levado o povo argentino a afirmação de sua soberania a partir da negação do pagamento de uma dívida espúria que subjugava o povo argentino e que ainda continua subjugando o povo brasileiro. A nossa dívida pública já passa da casa do trilhão.

Mas, vem aqui o Presidente dos Estados Unidos quando o mundo árabe está em ebulição. A política externa brasileira também se aliou, em parte, ao governo iraniano do Ahmanidejad. O governo iraniano cujo povo, através de uma revolução liderada pelo aiatolá Khomeini, se libertou do jugo da dinastia Reza Pahlavi, submetida aos interesses americanos, passou a afirmar a soberania de seu país. Agora, com a ebulição no Oriente Médio, os Estados Unidos da América do Norte, com o seu Presidente Barack Obama, tenta um realinhamento da política externa brasileira. Aliás, felizmente, na Líbia, o Presidente Kadafi está rechaçando algumas forças opositoras, que foram insensatas, estimuladas e armadas pelo governo americano, porque a Líbia resistiu e muito. Foi submetida a um longo bloqueio, porque na época o presidente líbio Muammar Kadafi se dispôs a apoiar qualquer movimento em qualquer parte do mundo que se destinasse a enfrentar o imperialismo americano.

Mas vem agora ao Brasil o Presidente dos Estados Unidos. É claro que ele não vem aqui para comunicar ao Governo brasileiro que está eliminando as barreiras alfandegárias para proteção da economia americana contra os interesses do Brasil. É claro que ele não vem aqui para supostamente apoiar o ingresso do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Ele pode até mentir. Ele vem aqui com sua diplomacia para tentar impor os interesses americanos.

Aliás, nem falei na Venezuela de Hugo Chávez. Com desassombro, Hugo Chávez denuncia claramente e enfrenta o império americano.

Mas tomamos conhecimento de que aqui no Estado do Rio de Janeiro o Presidente Barack Obama vai fazer um pronunciamento ao povo, na Cinelândia.

Aliás, o local escolhido já significa uma afronta, porque a Cinelândia tem sido o local, no Estado do Rio de Janeiro, das manifestações democráticas, e não das manifestações do império.

O pior são as restrições feitas àqueles que se dispuserem a lá comparecer. Quem comparecer não poderá levar nenhum volume, nenhuma bolsa; deverá ir, para não representar nenhuma ameaça, de preferência nu – estando nu, certamente nem precisará ser revistado. Isso é um constrangimento, é até uma humilhação! Acredito que ninguém, cidadão brasileiro que esteja morando no Rio de Janeiro ou visitando-o, poderá lá comparecer. É preciso que seja feito um boicote!

O Theatro Municipal suspendeu suas atividades, o Museu e Biblioteca Nacional não poderão receber visitantes porque o Presidente dos Estados Unidos vai se dirigir ao povo brasileiro. Os voos não poderão ser feitos, o Estado terá que parar suas atividades no Centro. Imagino qual seria a providência do governo americano se a Presidente Dilma Rousseff, em visita aos Estados Unidos, decidisse fazer um pronunciamento no Central Park. Que providências seriam tomadas? Aliás, essa iniciativa seria vista como ridícula! Mas por que a presença dele aqui, para fazer esse pronunciamento, não é ridícula? Não é ridícula porque é uma manifestação do império e os escravos, os sabujos, devem acolhê-la como sendo uma homenagem.

Tentam impor – aliás, o sistema Globo é campeão em fazê-lo –, tentam transformar a presença dele na Cinelândia como sendo uma homenagem ao povo brasileiro. Não o é; ao contrário, é uma afronta. O ideal será que a Cinelândia esteja vazia, que se transforme num deserto – aliás, nem a Câmara dos Vereadores poderá funcionar.

Ainda tomo conhecimento de que – vejam que coisa sem nenhum cabimento! – vai visitar uma Unidade de Polícia Pacificadora. Que Unidade de Polícia Pacificadora? Vão levá-lo a uma favela para que o Presidente dos Estados Unidos veja a tragédia social como é contida, para ver como pessoas conseguem sobreviver em condições desumanas? Talvez fosse melhor levá-lo ao Jardim Zoológico. Que história é essa? É humilhado, expondo suas vísceras ao dominador, e não tem sequer vergonha. Os governantes deveriam ter vergonha em relação à exposição do sofrimento humano, exatamente diante de quem tem responsabilidade também por essa humilhação e por esse sofrimento.

O império americano, exatamente agora, já está completamente desmoralizado. A informação transita com tanta facilidade que fica impossível a hipocrisia. Não está enganando, não vai enganar. O império americano está na derrocada, perdendo a sua força, e essa peregrinação do Presidente dos Estados Unidos no Brasil chega a ser uma afronta. Contra ela temos que nos posicionar, independentemente de nossas divergências internas. As divergências internas podem existir, mas acredito que, mesmo com as divergências, haja uma parcela majoritária que pretende o bem do nosso País, o bem do nosso povo.

Sr. Presidente, venho a esta tribuna para gritar em alto e bom som: Fora, Barack Obama! Fora o império americano! Fora a humilhação!

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Roberto Henriques) – A Presidência parabeniza o patriótico discurso de V. Exa., Deputado Paulo Ramos, gesto que não me causa surpresa porque já o conheço de longa data como um grande patriota.

O SR. PAULO RAMOS – Deputado-Presidente, nesta minha última explosão, indignado, e sinceramente indignado, eu – porque dizem que todos são iguais; às vezes os homens são substituídos nos postos, mas a política continua a mesma e eles todos são iguais – eu chamei o Barack Obama, no final, de Bush. Eles são muito parecidos, mas eu peço à Taquigrafia que substitua: “Fora, Barack Obama!”

O SR. PRESIDENTE (Roberto Henriques) – E, com a permissão de V. Exa., também: “império americano” não, “império norte-americano”.