segunda-feira, 31 de maio de 2010

15/04/2010 - Deputado Paulo Ramos critica intervenção norte-americana

O deputado Paulo Ramos, líder do PDT na Alerj, criticou duramente a política externa do governo dos Estados Unidos em relação ao Iraque e ao Irã, mas em especial aos países da América Latina. Ramos disse que os EUA objetivam acentuar ou recuperar o velho pretígio imperialista, particularmente no momento em que atravessam significativa crise econômica; e manifestou preocupação com as atitudes do governo americano sobre a Venezuela.

Ele afirmou que "já existem provas em outras partes do mundo que os americanos infiltram - eles próprios - freqüentam outros países, eles sim, promovem o terrorismo".
O líder do PDT disse ainda que o terrorismo imposto pelos Estados Unidos é conhecido e já documentado.

Leia a íntegra do discurso.

O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, diante de toda a tragédia vivida por parcela expressiva da população do Rio de Janeiro, venho a esta tribuna para tratar de uma outra tragédia anunciada.

Não tem sido hábito aqui nesta Casa a abordagem de questões internacionais, mas estamos constatando os esforços dos Estados Unidos com o objetivo de acentuar ou recuperar o seu prestígio imperialista, na medida em que a cada dia vai ficando mais evidente a fragilidade do império, que vem perdendo não apenas a expressão econômica, que vem perdendo não apenas a autoridade moral, se é que algum dia a teve, mas vem perdendo, acima de tudo, o prestígio político.

Um dos últimos episódios foi a invasão do Iraque pela questão do petróleo, descumprindo todas as deliberações da ONU.

O governo americano invadiu um país soberano e estruturou uma farsa de tribunal para assassinar o Presidente Saddam Hussein que, diferentemente do que foi divulgado pela mídia controlada pelos Estados Unidos, não abandonou o Iraque. Lá estava para resistir à invasão. E todos sabem que a causa foi o petróleo, na medida em que àquela época o Iraque controlava 15% do petróleo explorado no mundo.

Saddam Hussein nacionalizou tudo do petróleo. Nacionalizou! Não existia sequer uma bomba de gasolina com bandeira da Esso, Shell, Texaco. E ao fazê-lo virou adversário, aí o governo americano criou a farsa das armas de destruição em massa. Mesmo com parecer contrário da Organização das Nações Unidas, os Estados Unidos invadiram o Iraque. A farsa ficou completamente comprovada depois, até através de documentos que circularam no próprio governo americano.

E agora? Agora, quando alguns países resistem ao jugo americano, e podemos citar países na América do Sul, na América Latina, como Equador, Bolívia, Venezuela, Argentina – na América Latina como um todo – tem Nicarágua, tem Cuba, que resiste há tantos anos ao bloqueio desumano. Agora, vem a questão do Irã, que resolveu e tem o direito de aprofundar o conhecimento, aprofundar as pesquisas relativas à energia nuclear, vêm os americanos dizer que o Irã tem propósitos bélicos. Com qual autoridade? Com qual autoridade acusam um país soberano e, como tal, tem direito a desenvolver sua tecnologia? E aí começam novas manipulações.

Trouxe aqui, Sr. Presidente: em 1990, Estados Unidos detinham mais de dez mil ogivas estratégicas; e a Rússia, igualmente, mais de dez mil ogivas estratégicas. Havia a farsa da guerra fria, mas havia também os países não alinhados. Aí, assinaram um acordo, em 1991, para que em 2001 reduzissem seus armamentos nucleares para seis mil. E depois, outro acordo assinado em 2002 para que em 2010 cada um tivesse pouco mais de duas mil ogivas.

Estamos em 2010. Estados Unidos têm mais de nove mil; e a Rússia, igualmente, mais de nove mil. O jornal publica que a Rússia tem 12 mil e Estados Unidos, 9.400. E eles vêm com o argumento da assinatura de um novo acordo para que, em 2012, reduzam para 2.200 cada um e para que em 2017 cada um tenha 1.550. Um mil, quinhentas e cinquenta. E qual a credibilidade? Se eles assinaram acordos em 1991 e em 2002 e não cumpriram, mantiveram! Está aqui, hoje, Estados Unidos, 6.800 ogivas armazenadas; 500 ogivas táticas; 2.200 ogivas posicionadas. Quando falam em táticas e posicionadas, apontadas para onde? Aqui na América do Sul, num acordo com a Colômbia, os Estados Unidos querem construir mais bases militares.

Por que mais seis, oito bases na Colômbia? Porque o Equador não renova o acordo, a Bolívia não renova, a Venezuela nem se fala. Então, quer construir mais seis a oito na Colômbia para apontar as ogivas na direção de quais países? Inclusive para o Brasil. E aí, Sr. Presidente, vem com o argumento de que o Irã, a Coréia do Norte, são países que representam ameaça. Olha que citei só Estados Unidos e Rússia. O Presidente da França, Sarkozy, disse com todas as letras que ele tem a responsabilidade de manter a soberania da França; que ele não participa - aliás, a França, no Atol de Mururoa, tem feito inúmeros testes. Quero saber se os Estados Unidos ousam afrontar a França.

Porque na época da invasão do Iraque, a Inglaterra apoiou, mas a França não apoiou. A França assumiu uma posição soberana mantendo a tradição libertária, a tradição da não intervenção, a tradição da autodeterminação. Mas os Estados Unidos invadiram o Iraque, invadiram o Iraque como permanecem ocupando parcela do território cubano. E Israel? Israel prossegue ocupando os territórios árabes e dispõe de arsenal nuclear; arsenal nuclear patrocinado, obviamente, pelos Estados Unidos. E aí, Sr. Presidente, eu vi que há uma orquestração objetivando causar constrangimentos ao Irã, principalmente ao Irã.

E o Governo brasileiro tem assumido uma posição de respeito à autodeterminação dos povos, ao desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos, até porque o Brasil já sofreu esse constrangimento. Mas incluiu na Constituição que o Brasil não usaria a energia nuclear para fins bélicos, nem para a sua autodefesa; a qualquer outro País tem direito. Qual a razão de dizer que o Irã não é confiável se quem vive invadindo outros países, e promovendo guerra em outros países são os Estados Unidos? Porque os americanos são confiáveis, o governo americano é confiável e os outros não o são. Como é que eles disseram sobre as armas nucleares que eles querem preservar? É um mínimo estratégico. É assim que eles falam.

Então, Sr. Presidente, tomei conhecimento, ainda não sei se a informação é verdadeira, de que colocaram uma bomba no Consulado da Venezuela hoje, aqui no Rio de Janeiro. O Cônsul, que é um grande amigo meu, Edgard, me ligou dizendo que estava muito assustado, muito assustado. Afinal de contas, nós vamos trazer para dentro da nossa casa divergências criadas em torno do imperialismo americano exatamente em função de países que reagem, que querem encontrar e afirmar o seu próprio destino?

Já existem provas em outras partes do mundo que os americanos infiltram - eles próprios - freqüentam outros países, eles sim, promovem o terrorismo. O terrorismo imposto pelos Estados Unidos é conhecido e já documentado.

Sr. Presidente, não podemos aceitar que exista a intervenção e que qualquer país se sinta com autoridade para desenvolver artefatos nucleares sob a alegação de que é para autodefesa, mas com ogivas apontadas para outras partes do mundo e queiram encontrar discursos para suprimir a autodeterminação de qualquer povo. Mas é inaceitável que tragam a divergência para o solo brasileiro. Isso não podemos aceitar.

Se porventura colocaram verdadeiramente uma bomba no Consulado da Venezuela devemos reagir. Se a bomba foi colocada por representantes do governo americano ou de qualquer outro país imperialista, devemos reagir muito mais. Mas se, porventura, algum brasileiro incauto – ou qualquer grupo de brasileiros - resolveu assumir uma posição, tendo em vista, isto sim, o terrorismo americano contra a Venezuela, contra o Presidente Hugo Chávez, não podemos aceitar que assuma tal posição.

Sr. Presidente, quero manifestar a minha solidariedade ao povo iraniano, ou a todos povos que se sentem ameaçados, manifestar a minha rejeição à manipulação inclusive com a participação de meios de comunicação brasileiros, a manipulação da verdade para apoiar o imperialismo americano.

Mas quero também mandar a minha solidariedade ao povo venezuelano e ao nosso Cônsul Edgar Gonzáles que não pode viver em nosso país, porque o nosso país prega a conciliação, prega a negociação, prega a não intervenção que traga para o nosso território esse tipo de susto para a população brasileira, principalmente no Rio de Janeiro, que já está enfrentando tantas tragédias, não pode enfrentar mais esta.

Muito obrigado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário